Você nasce escritor ou torna-se um?

Dúvidas de uma autora iniciante

Como dizia José Saramago, “somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não”.

No mês passado, mais precisamente em agosto de 2019, publiquei meu primeiro livro através da Kindle Direct Publishing, da Amazon .


Foi incrível e assustador ao mesmo tempo.


Incrível porque finalmente pude tornar público os milhares de diálogos dos meus primeiros protagonistas, que vem povoando minha mente há mais de um ano.


Assustador porque eu estaria exposta ao julgamento alheio.


A verdade, porém, é que nenhum crítico lá fora pode ser mais cruel conosco do que nós mesmos.


Enquanto esperava para saber se e quando os primeiros ebooks seriam baixados, a insegurança bateu forte, assim como várias perguntas inevitáveis:


Por que estou fazendo isso comigo?

E se as pessoas odiarem?

Será que sou mesmo uma contadora de histórias? Conseguirei prender a atenção dos leitores ou pior, sequer terei leitores?

E a diagramação digital? De onde tirei a ideia de que poderia chegar a uma milha de distância disso?

Daria para passar o resto do post falando sobre todas as questões assustadoras que metralhavam a minha mente, mas a verdade é que, quando os primeiros livros começam a ser baixados, a sensação de eu fiz isso é algo incomparável.


Eu ouvi um podcast essa semana, de uma autora americana dizendo que ao publicar seu primeiro livro ela sentia-se uma fraude e perguntava-se o tempo todo: “como pude pensar que sou uma escritora?”


Hoje, essa mesma mulher é uma bestseller.


Eu não iria tão longe e diria que sentia-me uma fraude, mas a verdade é que, até que tenhamos o feedback dos primeiros leitores, as dúvidas persistirão.


E, em alguns casos, mesmo após eles.


Apesar disso, é incrível ver seus leitores chamando os personagens que você criou pelos nomes e comentando sobre a personalidade ou comportamento deles.


Mas nem tudo serão flores. Haverá críticas, é claro.


Antes de publicar meu livro, assisti muitas entrevistas de grandes autores como Stephen King, que foram rejeitados trinta, cinquenta vezes no início da carreira, então, eu meio que me preparei para o não, como boa capricorniana.


Uma coisa a ser dita: não as leve tão a sério.


Tentei enxergar algo positivo quando recebi meu primeiro (e por enquanto único) review ruim.


Não transforme seu crítico em um inimigo pessoal. Pense que ele tem todo o direito de não gostar de sua obra ou talvez simplesmente não estava em um bom dia quando escreveu o comentário.


Isso claro, considerando que a crítica realmente tenha sido injusta. Porque por vezes, a mensagem pode ser enviada de uma maneira não muito fofa, mas ainda assim verdadeira.


A coisa aqui é: você não tem controle algum sobre isso, então, continue fazendo seu trabalho e acreditando em si mesmo.


Para ser um escritor o primeiro passo é continuar escrevendo.


Eu sempre gostei de ler. Desde que me lembro, sempre estive com o rosto enterrado em um livro.


Às vezes terminava a leitura e ficava pensando que a história era boa, mas havia tanto mais que poderia ser dito. Em outras ocasiões, quando o livro chegava ao fim, estava tão encantada com o autor que custava a pegar no sono repassando a fala dos personagens mentalmente.


Dar o pontapé inicial e começar a escrever livros me parece hoje um caminho sem volta.
Não acredito que haja maneira de se deixar de ser um escritor, uma vez começada a carreira.


Talvez você não queira se expor. Talvez seja suficiente apenas escrever sem tornar isso público, mas uma vez que a coceira de escrever tem início, ela não para mais.


Eu não sei com vocês, mas comigo as falas dos personagens surgem em momentos mais loucos. Às vezes até mesmo em festas ou jantares na casa de amigos, quando todos estão interagindo e tendo um bom tempo, minha mente viaja e começa a se perder em capítulos que eu estava sofrendo para concluir.


O final de Seduzida, por exemplo. Eu estava no carro com meu marido, voltando de uma viagem de cinco horas na estrada. Enquanto ele guiava, eu tentei cochilar. De repente, vi o final do livro acontecendo em minha cabeça e sabia que precisava colocar aquilo no papel – ou no bloco de notas do Iphone, no meu caso.


Passei o resto do caminho finalizando os últimos três capítulos e quando cheguei em casa, não pude acreditar na maneira que as ideias surgiram. Eu estava há mais de dois meses com um bloqueio sobre como terminar o livro. Nada parecia bom o suficiente.


E então, inesperadamente, toda a história apareceu bem ali, prontinha a minha frente.
A partir de então, já nem me assusto mais quando os capítulos vem em momentos impróprios.


Escrever tornou-se tão essencial quanto beber água ou até mesmo respirar.


Não consigo imaginar minha vida agora sem estar criando o próximo livro.


Não acho que possa um dia virar uma desescritora (acabei de inventar a palavra – seria algo como um escritor que desistiu de escrever) porque as ideias não ficam trancadas. Elas sempre estarão rondando sua mente a espera de que você decida pô-las no papel.


Não sou uma autoridade no assunto ou qualquer coisa do tipo, mas se você me perguntar se acho que a pessoa nasce um escritor ou torna-se um, minha resposta é muito próxima da de Saramago: somos todos contadores de histórias em potencial. Só que alguns optam por mantê-las para si.

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